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Obsessões #0: Falcão e Soldado Invernal
a série

Criei esse quadro. Essa coluna chamada Obsessões.
Decidi dividir aqui algumas obsessões que tenho, passageiras ou não, e o que mais gosto nelas. Por que? Porque os pobres dos meus amigos não aguentam mais ouvir e eu já vi todos os vídeos do tik tok relacionado
é, o motivo é esse aí.
Eu não me chamo uma fã de quadrinhos, muito menos uma consumidora assídua. Por mais que ame heróis, que tenha lido muitos na infância por influência dos meus primos e isso tenha moldado setenta por cento da minha personalidade, não acho que sou fã. Mas definitivamente, eu amo as adaptações. É gostosinho demais ver os heróis que eu lia na tela grande, não ligo se está fiel ou nada disso, é puro entretenimento para alguém que ama filmes de ação como eu.
Sem pretensão nenhuma nem expectativa eu assisti as séries que saíram da Marvel pós Ultimato e etc, todo mundo odiando a fase nova e fui gostando da maioria, mas o que caralhos aconteceu em Falcão e Soldado Invernal pra eu ter me apegado tanto??
Juro. Fiquei pensando várias vezes: OK, são atores que você gosta, está explicado, a dinâmica deles é muito boa. Tudo bem, tem ali o subtexto homoafetivo que você tanto ama. Até que percebi que tinha um motivo além de todos.
Diferente dos outros filmes e série, essa, talvez seja, pela primeira vez que estamos assistindo heróis mais humanizados. Heróis não salvando o mundo, endeusados e superpoderes o tempo todo, e bem isso acontece em Wanda Vision também, mas chego lá no próximo parágrafo.
A Wanda ainda é uma heroína hiper poderosa apesar de ter perdido tudo, ela pode (meio que literalmente) resolver os problemas delas alterando realidades. E isso é até invejável, quem não queria isso? Quando tudo dá errado, é muito fácil se identificar com a dor da personagem, para ela, toda a realidade criada foi real, foi vivida e destruir tudo, é perder tudo mais uma vez.
Apesar das duas séries abordarem a humanização que comentei, Wanda Vision me pegou pela identificação com a dor da perda e a dor de querer consertar situações que não podem ser consertadas, de querer tudo do meu jeito, de me perguntar inúmeros porquês, mas Falcão e Soldado Invernal, me pegou por identificações mais realistas.
A humanização do Soldado Invernal e do Falcão vem justamente de dois heróis secundários quebrados da cabeça, um com um braço de metal e superforça que não servem para resolver seus fantasmas e pesadelos, e o outro sem poderes com uma responsabilidade imposta nas suas costas. Coisa que eu não sei você, mas eu me vejo facilmente aqui.
Eu não consigo criar uma realidade perfeita nem usar meus poderes mágicos para me vingar depois (como naquele filme chato do Multiverso da loucura), mas consigo me ver na cena que o Sam Wilson vai no banco e não consegue um empréstimo. Ou quando ele volta pra casa e percebe que tem que resolver os problemas da família. Consigo me ver na cena em que o Bucky Barnes está de frente para a psicóloga dele se perguntando “O que é que ela escreve nesse caderninho?”, ou quando ele mente pra psicóloga, ou quando acorda do mesmo pesadelo dezenas de noites. Ambos estão reduzidos a lidarem com a parte humana deles, buscam a ambição de uma “vida normal” e tranquila.
Eu dividiria a série, que é curta, em três núcleos: Os Apátridas, o Walker como Capitão América e o desenvolvimento de Sam e Bucky como pessoas e heróis.
Os personagens partem para outra missão, mas até essa missão, não é tão endeusada quanto salvar o mundo, porque é pessoal. Querer compreender os Apátridas vem antes do Walker como Capitão América, é entender como personagens parte da sociedade e como personagens agentes do governo, o que aquele grupo - chamado de terroristas por uns e salvadores por outros - está fazendo.
Isso se amarra em toda a trama com o Walker que está sendo o símbolo do Capitão América de forma errônea e que incomoda os protagonistas, de novo salvador de uns, terror de outros. Walker herdou um escudo que o Bucky vê como um legado e o Sam uma responsabilidade. Nenhum dos dois está feliz de ver o Walker no posto, mas ainda é cedo demais para tomar uma decisão. Após conhecer os Apátridas, saber sobre os soros, Sam conhece um único homem negro, Isaiah, com o soro nas veias e um histórico de exploração de laboratório que para um bom entendedor sabemos se tratar de uma vítima de campos de concentração nazistas. Saber que por décadas existia um possível Capitão América negro faz o Sam repensar sobre o escudo, representatividade e responsabilidade, e como esse momento pode ser a virada para resignificar o que é ser Capitão América.
Sam decide que vai tomar o escudo do Walker. Não porque ele será o novo Capitão América, mas porque o símbolo e legado do Steve estão sendo manchados. Bem aqui, entramos no terceiro núcleo, enquanto Bucky acha errado o Sam não aceitar o escudo, o Sam sente que o Bucky, e nem o Steve, entenderam o que era entregar o escudo da américa a um homem negro. E de fato não entenderam. Nunca entenderiam. E isso abre margem para inúmeras discussões que não vou trazer aqui para não ficar extenso demais, mas vou dizer que: na minha opinião e na minha leitura desse arco, o que importa é a consciência de raça e classe, e como às vezes, ter uma linha de frente de pensamento igual (consciência de classe) na prática pode se dividir e causar debates dentro de um mesmo ideal, porque falta consciência de raça.
Isso não quer dizer que dentro da esquerda não podemos debater, mas que faça isso com consciência.
Outros acontecimentos se sucedem até o Sam aceitar o escudo e entender que naquele momento, ele precisa ser o Capitão América. Não porque o Steve queria, o Bucky quer, ou até mesmo ele quer, mas porque se não for ele, vai ser alguém pior e o legado do escudo é dar às pessoas algo para acreditar e se inspirar, e está na hora de dar a pessoas marginalizadas pela aquela sociedade o mesmo sentimento de acreditar. Sam é um símbolo de justiça e igualdade.
Steve era um bom homem, mas um capitão de ideais americanos de uma parcela da sociedade e o Walker ia no mesmo caminho, sem a bondade do Steve.
É como disse o Kendrick Lamar: A revolução começou na hora certa, com o cara errado.
Foi assim que entendi meu amor pela série. Uma jornada com foco nas emoções, sentimentos mais internos e aquilo que, normalmente, não queremos encarar. Particularmente, não que isso tenha sido proposital da Marvel, nem que precise de aplausos, porém ver tudo isso em protagonistas homens também é diferente já que quebra o padrão dos homens machos que não choram, não sofrem de saudades por um amigo que se foi, não sofrem por brigar com um amigo, apenas são heróis icônicos salvando o mundo e sendo fortes. Na minha opinião, eles não tiveram tanto olhar e tempo para desenvolver isso em toda a relação Tony Stark e Steve Rogers como tiveram na série.
Isso vale também para o subtexto gay dessa série, ou você achou mesmo que eu não ia citar isso? Pelo amor, alguém precisa avisar os roteiristas que ultimamente os filmes de herois estão mais gay que Brokeback Mountain.
Brincadeiras à parte, não vai ter segunda temporada, os filmes provavelmente não vão entregar ou aprofundar mais na amizade desses dois dado o que vem saindo recentemente, o que é um desperdício. O que resta para essa autora expert em subtexto homossexual apenas tristeza.
ESCREVENDO O QUE?
Não ando escrevendo com frequência, a ansiedade não deixa. Ficar desempregada é sempre a pior coisa para minha saúde mental.
Meu último texto foi um conto sobre abdução alienígena voltado para os sinais anteriores à abdução, ele se chama “A cegueira que caiu do céu”, foi escrito às pressas num fim de semana só para eu dizer que escrevi e pasmem! passou no edital da Cabriolé. Não acho que eu sou muito boa no terror, nem escrevendo coisas tão curtas assim, mas a Cabriolé gostou então…
INDICAÇÕES
DAMN. ainda é meu álbum favorito do Kendrick Lamar e Pride é minha favorita. Esses dias tenho escutado muito GNX também. Estou aceitando ingressosgratuitos para o show.
Vai assistir Falcão e Soldado Invernal, pô. Ou pelo menos vá ver Top Gun, o subtexto gay é igual. Não adianta argumentar comigo, ambos os filmes tem sim um subtexto fortíssimo, não são apenas amigos pilotos. Conta outra!
Até a próxima!