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Bloqueios, bastidores e desabafos
essa newsletter vai falar sobre luto, se for um gatilho para você considere não ler.
Não que isso importe, mas faz mais de dois meses que não escrevo nada e posto aqui.
E muita coisa aconteceu nesses meses, essa newsletter vai ser um grande desabafo.
Tive a sorte de ter um pai presente, ótimo, que me criou muito bem e não só fez a obrigação dele, nem o mínimo, mas era meu melhor amigo. Eu sempre soube que a falta do meu pai seria o pior momento da minha vida, sabia que seria solitário, doloroso, excludente, eu sabia de tudo, mas como esperado, saber disso não me ajudou muito.
Meu pai faleceu em agosto devido a complicações de uma doença que ele já tinha: enfisema pulmonar. Nem uma semana depois, eu fui tirada de casa pela minha mãe (pra não dizer claramente expulsa) e me vi sem emprego, sem casa, eu e um cachorro sem saber o que fazer, onde ir e como recomeçar.
Fiquei num automático, além do luto eu estava em fase de mania, então não conseguia sentir o luto ou a perda como via todo mundo à minha volta sentindo. Precisava avisar pessoas, separar roupa de velório e burocracias de hospital, aquelas coisas que ninguém te ensina o passo a passo e quando acontece é desesperador de tão confuso.
E nesse tempo, claro, eu não conseguia escrever nada. Por mais que eu quisesse escrever, editar, e seguir com os meus planejamentos até como uma forma de afastar a dor, distrair a mente, eu não conseguia. Para alguém sem confiança, os textos já eram ruins mesmo, pior era não conseguir por uma letra na tela sem chorar.
Tudo lembrava meu pai. Tudo lembra o meu pai. Ele era meu maior fã, mesmo lendo um conto só, mesmo dizendo que não ia ler nada LGBT porque é hétero, mesmo não entendo porque lobisomens podem se apaixonar se são feitos para dar medo e estraçalhar pessoas. Ele acreditava em mim mais do que qualquer outra pessoa. E foi quem mais chorou quando soube que meu livro ia sair por uma editora.
Eu precisava de tempo para voltar a escrever e não tinha tempo, porque minha vida se tornou sobreviver ao abuso psicológico em casa, a procurar uma casa nova e tentar não sumir do mapa de vez. Veio o bloqueio, veio a vontade de desistir, cogitei várias vezes conversar com a Magh e dizer que ia largar tudo: a escrita, o agenciamento, contratos. Não era justo, eu só tinha uma pessoa que valia a pena mostrar que eu conseguia, que eu era capaz, que me buscar no ponto da faculdade todos os dias uma da madrugada valeu a pena, que eu era boa no que fazia, e se ela não estava mais aqui, não tinha motivo algum.
Percebi que vivia mais buscando provar e me validar, do que pela minha própria vida. E isso foi um choque ao mesmo tempo que foi um estalo. Não tinha mais ninguém para provar nada, ninguém para buscar validação, e tarde demais, conversando com as minhas tias e irmãs, percebi que meu pai verbalizou muito para elas que nunca se importou com isso, ele só queria que eu fosse feliz e vivesse bem. Tive que sentir isso, desacreditar do meu pensamento, e depois ouvir de uma entidade na gira para finalmente aceitar.
E foi quando eu decidi que ia tentar fazer isso. Aos pouquinhos, devagar, no meu tempo.
Pode parecer bobagem, mas foi nesse pensamento que as coisas começaram a caminhar, a passos de tartaruga.
Eu doei todas as coisas dele, antes queria ficar com algumas, mas percebi que olhar pra elas me causavam mais dor do que uma boa memória. Encontrei uma casa que não queria, num lugar que eu não queria, mas que servia e era o que eu podia pagar. Me mudei, consegui um emprego e no primeiro dia, sozinha em casa, com a maioria das burocracias da vida concluídas, finalmente eu escrevi.
Chorei bastante também. Caiu a ficha de que a vida agora era outra, mais solitária e dolorida do que já era.
Hoje, a edição está fluindo um pouco melhor, ainda atrasada, mas fluindo.
Esse livro é uma história que retrata muitas questões do meu círculo familiar, meu círculo de amigos, minhas coisas favoritas, meus ideais políticos, meus finais felizes desejados, eu dei tudo de mim como se esse livro fosse ser o primeiro e o último.
Mexer nela novamente, depois disso tudo, não tem sido nada fácil, mas sei que a última coisa que meu pai ia querer é que eu desistisse da publicação, de escrever ou de qualquer outra coisa que eu amo.
Não tem sido dias fáceis.
Às vezes a solidão de morar numa casa sozinha pela primeira vez, me atinge, a saudade vem, as preocupações de que se agora eu ficar desempregada não tem mais ninguém pra me ajudar e me amparar, não ter mais quem me espere no sofá fumando um cigarro com o cachorro do lado, saber que um dia esse livro vai estar por aí, pronto, e meu pai não está aqui pra segurar na mão… Foi um tapa doloroso da vida e da vida adulta.
Tudo dói. E vai continuar doendo por um tempo, é o que dizem: o luto é assim, a vida cresce em volta, mas ainda está lá.
Não sei quando vou conseguir escrever algum conteúdo pra essa newsletter de novo, se vou voltar a ter uma constância mensal. De qualquer forma, o que eu queria era postar alguma coisa, dizer que não sumi (mas que foi quase) e que escrever pensamentos aleatórios aqui sempre me fez bem.
Então talvez eu volte em breve.
ESCREVENDO O QUE?
Por incrível que pareça, eu estou escrevendo. Em paralelo com a edição do meu livro, ando trabalhando numa distopia olímpica cheia de vingança, política e sentimentos internalizados. Está sendo bem catártico eu diria. Tá saindo alguma coisa bem legal.
O que vai virar, eu não sei.
INDICAÇÕES
Eu estou vivendo através de uma fotossíntese com Seventeen + Florence + Heated Rivalry. E acho que isso forma a minha personalidade!
Até a próxima!